20.7.10

O imaginário poseidon e sua destreza

Sucupira, a árvore que anuncia a sombra. Faz respirar. E deita nos ombros da moléstia. respira. Ataca o sálico paladar, desnuda e veste. Age, racha o rotineiro, lasca o menor espaço e oferece.

Vimeo

2.2.10

Esquálido torpor
Sobre o ferro
Anel que envolve o esqueleto

Diminuo, marcha lenta
Longe
pequeno

Pra você
Este acanhado sentimento
beijo

7.5.09

PRIMEIRA PARTE

A hipótese e o objetivo

Como um conjunto de aulas teóricas poderia ser útil em minha monografia? O tema se aproxima tanto da prática que por vezes parece complicado. O traço superficial e ainda rasteiro de uma idéia mais profunda poderia, nesse contexto, se firmar “realmente” na feitura, na prática em si.

Como sustentar através de “arcabouços teóricos” aquilo que só se entende, se realiza, em sua plenitude: fazendo-se. Os campos de estudo sugerem a prática, o aprendizado no local, “ON-BY-JOB”, indicando assim que toda a estrutura do ensino e da teoria deveria ser a prática.

Mas a teoria existe e não é a prática. Engraçado notar a trajetória meteórica da teoria sobre esse tema, facilmente ela se esvai e cede espaço ao instinto. Por vezes nem se quer “da às caras”. Assume-se o ofício e pronto, já o é.

Não que a teoria seja fraca ou falha. Ela é rápida e decisiva e ponto. Dura pouco, mas incrusta naquele que a tentou entender um primeiro e primordial grão, o grão primigerador de Guimarães Rosa. O subconsciente do prático está afetado e proverá de uma maneira secreta todo o instinto do indivíduo. Esse é o lugar da teoria, acredito eu, nos ofícios mais práticos: o seu pantheon.

Escrevo isso porque acredito ser importante esclarecer a relação entre a teoria e a prática no que diz respeito ao meu objeto específico: a cinematografia norte-americana, sua criação, seu conceito e sua aplicação.

Tentarei entender autores como Stephen H. Burum, ASC que editou o livro Selected Tables, Charts and Formulas for the Student Cinematographer, David E. Elkins, SOC que escreveu o livro The Camera Assistant’s Manual, Douglas C. Hart com The Camera Assistant’s Manual A Complete Professional Handbook, Barry Green, Harry C. Box com Set Lighting Technician’s Handbook e, a grande enciclopédia do cinematografista, o American Cinematographer Manual.

Dedicarei um bom tempo de minha vida a entender como funciona, como se estrutura e como se pensa na Sociedade Americana de Cinematografistas (American Society of Cinematographers). Analisarei suas relações com os membros da equipe e com os membros fora da equipe. Procurarei entender o que John Hora, ASC assim definiu:

Cinematography is a creative and interpretative process that culminates in the authorship of an original work of art rather than the simple recording of a physical event

27.1.09

Poesia do regresso

Ácido sobre a pele

Feroz ascendente circular

Anseio sorrateiro

Beijo sob a pele do raio de sol

Risada

Do jeito que eu sou

Sobre as penas avulsas de uma pavãozinho

E entre teus dedos de caipirinha

Sussurro

Agüento o lirve e macio concreto da estrutura

Sólido me sustento

Azul

13.5.07

Novas poesias

Dia desses fiz amizade com um pequeno cachorro.

Preto.

As vestes velhas e bem passadas abrigavam olhos de fragilidade. Larguei de mim toda a vaidade e passei a viver com o cão. Aprendi a baixar a cabeça, respirar e pensar. E, claro, a latir.

8.5.07

Conto antigo

José, a moça e Ele.

Num engodo, daqueles que lhe tiram o ar, José, nome vindo do pai, sacou a arma branca e cortou o pescoço.Os olhos abertos, satisfeitos ou não, anunciavam o medo da moça.O fato é que José não conteve a ira que nascia, rebentava pela superfície e lhe fazia sentir dores no peito.Foi isso, sacou a faquinha de comer e rasgou o cachaço.Agora não diz besteira.Ficou calado. O corpo de um lado e a cabeça ali, no chão de granito, no pátio do play, ao vento sereno da noite, na beira estreita do que foi e do que já não é mais.

O cigarro veio depois, amassado. O isqueiro no bolso rasgado saltou num instante.Fogo.Um trago profundo e ânsia.Veio a moça, desajeitada e gorda que era, não fazia menos que gritar.Batia também, mas José nem sentia.Então se tinha: a faca de comer, em sangue; José e cigarro; a moça e seu jeito; O defunto, repartido.O sangue secava e já fazia parte do chão, seu amigo conhecido, um lar.As cadeiras e mesas não se moveram, por isso não contam de nada.As paredes, como não ouvem, a despeito de quem ache o contrário, pareciam imóveis e insensíveis como antes.A noite escura não mudou de cor.O sol, só amanha.Restava mesmo, de imediato: a moça, José e o defunto em duas partes assimétricas.

Silêncio.A moça não grita, não bate mais.Está exausta.José não fala, nem nunca falou. É homem quieto, de poucas e raras palavras.O som que chegava da rua parecia mais nítido, confortável.Um misto de carros a passar, buzinas e só, pouco pleno.Na verdade era um carro ou outro, de vez em quando.Uma buzina, no máximo. Eis o novo formato: o novo-defunto no chão, a moça de joelhos e José, sentado. José sabia ser ele o arranjador daquele novo aspecto de vida.Pensava sereno no conteúdo da cena que lhe invadia os olhos. É certo que pensava, pois não haveria de ser de outra maneira. José sempre pensou.Pensava, pensava, pensava. Afinal era um pensador de profissão, filósofo.

Foi só.A polícia chegou.José foi pro xadrez.O defunto, junto de cada parte sua, foi pra debaixo do chão.A moça, bem, a moça saiu correndo e se jogou contra o ônibus da prefeitura, desses que transportam velhinhos.Quebrou as duas pernas e a bacia. Hoje mora no hospício regional. Cercada de flores que ela mesma planta. Cercada de gente que desconhece. Cercada de um José que corta o outro e de um Ele que não vale a pena lembrar para evitar maiores aborrecimentos.

27.4.07

Lastro Simbol

Faz tempo passou e veio de novo ontem. Era dia, sol a pino.

7.2.07

Sobre Litte Miss Sunshine

Engraçado, sem repressões violentas: esporro. Lembrar o sorriso, a "beleza inefável" que desprende-se das imagens e convence o publico. Agradável, cinematográfico moderno. O toque próximo, estrelas em carne e osso de Bresson; aquilo que o teatro priva. O emocional não interpretativo, simples. Perigo: "quanto maior o sucesso, mais ele beira o fracasso". Então o que mais dizer, se o povo gosta?
Esse passou diferente, com indicação ao Oscar e muitos pré-conceitos.
Pareceu bem, saciou.

8.11.06

Às palavras minguadas

Singela proposta emocional emanava Átila naquela noite quente, não bastasse o pinho de cachaça tomado no dia anterior mergulhava sua teia suja labial sob a vagina desajustada de Pietra, dona de um sorriso inegualável e fatal, não por isso esquecera de dizer suas meias palavras antes de deitar-lhe no seio. Breve. Rasteiro avassalador petrificou toda aquela velha estória sobre prazer e felicidade. E foi que vários teores de abstração se fizeram sorrir quando chegou o ponto, o ponto. Continuar, essa era a palavra. E ele foi. Desajustado, mas foi. Não queria mais essa presença, não. Borges não lhe explicou nada e acreditava no sucesso. Falhou.

6.10.06

Macumba

A melhor frase de todos os tempos em doces mordidas
Digo já que K. não chega aos pés
Alguma coisa a dizer?
Me dá um beijo
Me vende um beijo
Porque não roubo, acho bruto
Papel no mar com inscrição de amor
Logo tudo vai se resolver
"Comboio de cordas" não sei se aguento
Rasgo sinal em palavras soltas, como já foi dito
E quem espera essa droga de fingir?
Essa bosta fugidia e afiada

Tudo porque dias desses perdi em fracasso
"Sur" explicaria: sorria!
Mas não
Não é assim
Presta atenção, olha pra mim
Satélite de promessas como Cazuza
E escrever é bom como o de cima
De costas pro mundo, açoite fiel
Sentimento

Saravá

5.9.06

Espelho

Não quero mais esse feitiço de vinho
Entalado no peito
Que merda!
Esse sexo em chupadas...

Quero o novo, o acesso mais simples...

E se as bocas não forem mais as mesmas, suporto!
Me viro de lado, me viro de mim mesmo
Mudo. À tapas, mas mudo.
Passo por cima
Atropelo com carinho
Pra quem sabe depois
Depois...
Morrer o amor, como num "seja como for" de Drummond.
Que é mais sabido do que eu.

4.9.06

Resultado de um mergulho um pouco mais profundo e ainda sem regresso.

Enquanto acendia na cara dos homens e mulheres as luzes
Zé Celso bebia seu vinho "comuna", pacífico e distante
Foi então que ela veio...
Fechou as cortinas.

Bem, fiquei sabendo que o tempo se esgotara.
Virei, saí distinto, num trabalho de roda sem igual!
Desci, virei ,andei reto...
Depois descobri:

Não passava de um tempo que foi
Daí então pensei...
E se ele não tocasse!
Não fosse tão besta!

Sabe, como um pedaço de mim que não sai, diabo!
Quem gostaria mais de mim?
Piu piu.

30.7.06

Devaneios

Eu bebo ar
Sintonia pavorosa de luz e gente
Mar

Leal asfalto
Conduções, tremeluz ascendente
Veloz

Beijo vazio
Toque carinho, amor
Vida

Ela, só
Cálido pedido
Rio Amazonas lá vou eu

16.7.06

Escrever sobre coisas da vida, pessoas, cigarros e cervejas.

Astor Piazzola e Luciano Pavarotti juntos. Restava Herbert Vianna. Ele veio, não poderia faltar. Veio a pé, a rodas. Atravessara a cordilheira dos Andes viril e astuto. Meio do dia, sol a pino, um, dois, três, quatro quentes de nervura e a veia habitual palpitava na testa. Astor e Pavarotti de longe observavam a chegada, sorriam com olhos de brilho ao amigo. O último gesto de força indicava a chegada,o aperto de mãos e palavras cantadas. Não havia uma só delas que não fosse cantada. Não, de fato não havia. Acrescido a isso mais nada.

Escrever sobre coisas da vida, pessoas, cigarros e cervejas

Era tempo, Herbert Vianna não tocava há meses. As cordas nos dedos e o som imediato não chegavam. Quis andar, ver de cima. Fechou os olhos, imaginou retrato fixo de Annie e chorou seco. Gatinhos de veludo acentuavam a loucura e miavam sem cessar. Quis gritar, desabafar. Desistiu e fez brincar, logo logo uma linda sinfonia de gatos quis cantar. Ele deixou, se acostumou. Tempos depois tocou, mesmo trio, mesmas caras e sol em tudo.

Escrever sobre coisas da vida, pessoas, cigarros e cerveja.

O frio açoitava as costas de Luciano Pavarotti, depois daquele último show passara a noite em claro, nu. O sol descia do leste a oeste parabólica terra que anda veloz. O primeiro raio de sol fez toque na pele, desperta o desespero que é a vida e faz ver. A baba que escorria pelo beiço agradecia a retirada e pavarotti já de pé se espreguiçava - Ahhh... - A campainha soa. Veste-se, roupão de pele de raposa. Abre a porta. É Astor Piazzola vestido de terno, laço no pescoço e um chapéu de esguio, preto e branco. Astor aperta-lhe as buchechas e canta - Loco! - Pavarotti grunhindo de dor com as buchechas já vermelhas canta - Loco!

Escrever sobre coisas da vida, pessoas,cigarros e cervejas.

Luciano Pavarotti bebia seu wisky sem gelo antes do show, desenho do palco claro, as idéias mais furtivas daquela língua musical lhe prediziam toques de ar. A acessora direta de Pavarotti o berra, espaço diferente e muito mais barulhento: o lado de fora. Ele de dentro levanta a cabeça e respira seu último gole. Ergue-se meia altura, os joelhos ainda encurvados e o rabicho do traje roçava suas pernas. O olho fixo no espelho, o rosto e a gravata borboleta destoavam sua atenção. Um sorriso veio breve, as mãos apoiadas sobre a mesinha e o impulso que levantaria o corpo e espírito para o alto - Já vou, Maria. - E veio o show.

15.7.06

Color de tu

Ela veio num soturno tão discreto. Pelo muro avante ao parque o primeiro beijo em frente: uma estátua de ferro e muito sol. Dois mendigos testemunhas de um amor estranho e liso; um tempo que insiste toda hora em bater e respirar dentro fora do que sou e muito mais que isso o que não posso mais estar, ser exato e firme e reto um avante de certeza. Estou nu descontrolado sem um tico pra dizer. Amo-te flor do gasto pasto sobre um sonho de fluidos negros e lindas borboletas que deliram sobre teu cabelo cheio de um cheiro que conheço e me busca o teu suar piantao descontrolado e caudaloso. Color de tu. Gesto leve.