13.5.07

Novas poesias

Dia desses fiz amizade com um pequeno cachorro.

Preto.

As vestes velhas e bem passadas abrigavam olhos de fragilidade. Larguei de mim toda a vaidade e passei a viver com o cão. Aprendi a baixar a cabeça, respirar e pensar. E, claro, a latir.

8.5.07

Conto antigo

José, a moça e Ele.

Num engodo, daqueles que lhe tiram o ar, José, nome vindo do pai, sacou a arma branca e cortou o pescoço.Os olhos abertos, satisfeitos ou não, anunciavam o medo da moça.O fato é que José não conteve a ira que nascia, rebentava pela superfície e lhe fazia sentir dores no peito.Foi isso, sacou a faquinha de comer e rasgou o cachaço.Agora não diz besteira.Ficou calado. O corpo de um lado e a cabeça ali, no chão de granito, no pátio do play, ao vento sereno da noite, na beira estreita do que foi e do que já não é mais.

O cigarro veio depois, amassado. O isqueiro no bolso rasgado saltou num instante.Fogo.Um trago profundo e ânsia.Veio a moça, desajeitada e gorda que era, não fazia menos que gritar.Batia também, mas José nem sentia.Então se tinha: a faca de comer, em sangue; José e cigarro; a moça e seu jeito; O defunto, repartido.O sangue secava e já fazia parte do chão, seu amigo conhecido, um lar.As cadeiras e mesas não se moveram, por isso não contam de nada.As paredes, como não ouvem, a despeito de quem ache o contrário, pareciam imóveis e insensíveis como antes.A noite escura não mudou de cor.O sol, só amanha.Restava mesmo, de imediato: a moça, José e o defunto em duas partes assimétricas.

Silêncio.A moça não grita, não bate mais.Está exausta.José não fala, nem nunca falou. É homem quieto, de poucas e raras palavras.O som que chegava da rua parecia mais nítido, confortável.Um misto de carros a passar, buzinas e só, pouco pleno.Na verdade era um carro ou outro, de vez em quando.Uma buzina, no máximo. Eis o novo formato: o novo-defunto no chão, a moça de joelhos e José, sentado. José sabia ser ele o arranjador daquele novo aspecto de vida.Pensava sereno no conteúdo da cena que lhe invadia os olhos. É certo que pensava, pois não haveria de ser de outra maneira. José sempre pensou.Pensava, pensava, pensava. Afinal era um pensador de profissão, filósofo.

Foi só.A polícia chegou.José foi pro xadrez.O defunto, junto de cada parte sua, foi pra debaixo do chão.A moça, bem, a moça saiu correndo e se jogou contra o ônibus da prefeitura, desses que transportam velhinhos.Quebrou as duas pernas e a bacia. Hoje mora no hospício regional. Cercada de flores que ela mesma planta. Cercada de gente que desconhece. Cercada de um José que corta o outro e de um Ele que não vale a pena lembrar para evitar maiores aborrecimentos.

27.4.07

Lastro Simbol

Faz tempo passou e veio de novo ontem. Era dia, sol a pino.

7.2.07

Sobre Litte Miss Sunshine

Engraçado, sem repressões violentas: esporro. Lembrar o sorriso, a "beleza inefável" que desprende-se das imagens e convence o publico. Agradável, cinematográfico moderno. O toque próximo, estrelas em carne e osso de Bresson; aquilo que o teatro priva. O emocional não interpretativo, simples. Perigo: "quanto maior o sucesso, mais ele beira o fracasso". Então o que mais dizer, se o povo gosta?
Esse passou diferente, com indicação ao Oscar e muitos pré-conceitos.
Pareceu bem, saciou.

8.11.06

Às palavras minguadas

Singela proposta emocional emanava Átila naquela noite quente, não bastasse o pinho de cachaça tomado no dia anterior mergulhava sua teia suja labial sob a vagina desajustada de Pietra, dona de um sorriso inegualável e fatal, não por isso esquecera de dizer suas meias palavras antes de deitar-lhe no seio. Breve. Rasteiro avassalador petrificou toda aquela velha estória sobre prazer e felicidade. E foi que vários teores de abstração se fizeram sorrir quando chegou o ponto, o ponto. Continuar, essa era a palavra. E ele foi. Desajustado, mas foi. Não queria mais essa presença, não. Borges não lhe explicou nada e acreditava no sucesso. Falhou.

6.10.06

Macumba

A melhor frase de todos os tempos em doces mordidas
Digo já que K. não chega aos pés
Alguma coisa a dizer?
Me dá um beijo
Me vende um beijo
Porque não roubo, acho bruto
Papel no mar com inscrição de amor
Logo tudo vai se resolver
"Comboio de cordas" não sei se aguento
Rasgo sinal em palavras soltas, como já foi dito
E quem espera essa droga de fingir?
Essa bosta fugidia e afiada

Tudo porque dias desses perdi em fracasso
"Sur" explicaria: sorria!
Mas não
Não é assim
Presta atenção, olha pra mim
Satélite de promessas como Cazuza
E escrever é bom como o de cima
De costas pro mundo, açoite fiel
Sentimento

Saravá

5.9.06

Espelho

Não quero mais esse feitiço de vinho
Entalado no peito
Que merda!
Esse sexo em chupadas...

Quero o novo, o acesso mais simples...

E se as bocas não forem mais as mesmas, suporto!
Me viro de lado, me viro de mim mesmo
Mudo. À tapas, mas mudo.
Passo por cima
Atropelo com carinho
Pra quem sabe depois
Depois...
Morrer o amor, como num "seja como for" de Drummond.
Que é mais sabido do que eu.

4.9.06

Resultado de um mergulho um pouco mais profundo e ainda sem regresso.

Enquanto acendia na cara dos homens e mulheres as luzes
Zé Celso bebia seu vinho "comuna", pacífico e distante
Foi então que ela veio...
Fechou as cortinas.

Bem, fiquei sabendo que o tempo se esgotara.
Virei, saí distinto, num trabalho de roda sem igual!
Desci, virei ,andei reto...
Depois descobri:

Não passava de um tempo que foi
Daí então pensei...
E se ele não tocasse!
Não fosse tão besta!

Sabe, como um pedaço de mim que não sai, diabo!
Quem gostaria mais de mim?
Piu piu.

30.7.06

Devaneios

Eu bebo ar
Sintonia pavorosa de luz e gente
Mar

Leal asfalto
Conduções, tremeluz ascendente
Veloz

Beijo vazio
Toque carinho, amor
Vida

Ela, só
Cálido pedido
Rio Amazonas lá vou eu

16.7.06

Escrever sobre coisas da vida, pessoas, cigarros e cervejas.

Astor Piazzola e Luciano Pavarotti juntos. Restava Herbert Vianna. Ele veio, não poderia faltar. Veio a pé, a rodas. Atravessara a cordilheira dos Andes viril e astuto. Meio do dia, sol a pino, um, dois, três, quatro quentes de nervura e a veia habitual palpitava na testa. Astor e Pavarotti de longe observavam a chegada, sorriam com olhos de brilho ao amigo. O último gesto de força indicava a chegada,o aperto de mãos e palavras cantadas. Não havia uma só delas que não fosse cantada. Não, de fato não havia. Acrescido a isso mais nada.

Escrever sobre coisas da vida, pessoas, cigarros e cervejas

Era tempo, Herbert Vianna não tocava há meses. As cordas nos dedos e o som imediato não chegavam. Quis andar, ver de cima. Fechou os olhos, imaginou retrato fixo de Annie e chorou seco. Gatinhos de veludo acentuavam a loucura e miavam sem cessar. Quis gritar, desabafar. Desistiu e fez brincar, logo logo uma linda sinfonia de gatos quis cantar. Ele deixou, se acostumou. Tempos depois tocou, mesmo trio, mesmas caras e sol em tudo.

Escrever sobre coisas da vida, pessoas, cigarros e cerveja.

O frio açoitava as costas de Luciano Pavarotti, depois daquele último show passara a noite em claro, nu. O sol descia do leste a oeste parabólica terra que anda veloz. O primeiro raio de sol fez toque na pele, desperta o desespero que é a vida e faz ver. A baba que escorria pelo beiço agradecia a retirada e pavarotti já de pé se espreguiçava - Ahhh... - A campainha soa. Veste-se, roupão de pele de raposa. Abre a porta. É Astor Piazzola vestido de terno, laço no pescoço e um chapéu de esguio, preto e branco. Astor aperta-lhe as buchechas e canta - Loco! - Pavarotti grunhindo de dor com as buchechas já vermelhas canta - Loco!

Escrever sobre coisas da vida, pessoas,cigarros e cervejas.

Luciano Pavarotti bebia seu wisky sem gelo antes do show, desenho do palco claro, as idéias mais furtivas daquela língua musical lhe prediziam toques de ar. A acessora direta de Pavarotti o berra, espaço diferente e muito mais barulhento: o lado de fora. Ele de dentro levanta a cabeça e respira seu último gole. Ergue-se meia altura, os joelhos ainda encurvados e o rabicho do traje roçava suas pernas. O olho fixo no espelho, o rosto e a gravata borboleta destoavam sua atenção. Um sorriso veio breve, as mãos apoiadas sobre a mesinha e o impulso que levantaria o corpo e espírito para o alto - Já vou, Maria. - E veio o show.

15.7.06

Color de tu

Ela veio num soturno tão discreto. Pelo muro avante ao parque o primeiro beijo em frente: uma estátua de ferro e muito sol. Dois mendigos testemunhas de um amor estranho e liso; um tempo que insiste toda hora em bater e respirar dentro fora do que sou e muito mais que isso o que não posso mais estar, ser exato e firme e reto um avante de certeza. Estou nu descontrolado sem um tico pra dizer. Amo-te flor do gasto pasto sobre um sonho de fluidos negros e lindas borboletas que deliram sobre teu cabelo cheio de um cheiro que conheço e me busca o teu suar piantao descontrolado e caudaloso. Color de tu. Gesto leve.

Rápido e rasteiro

experimenta ser único
detrás do poste largo
o amor a espreitar

vai ser, tenta ultrapassar a barreira
aluga um carro velho e desvia, voa
o amor a espreitar

e se um dia lhe achar
saiba logo sem cessar
noutro mundo vai estar

8.7.06

Oco

Samba doce escala perfumada
Riso solto som alto
Não tem medida o livre corajoso
Pra mim

Passo torto e pesado do assunto
Oste grande carro-de-homem
Não é real o rastro dos pés no asfalto
Pra mim

Vai lá, pega o "psico-homem" e varre a cabeça...
Areja, pontua e se lambe todo...

Meço o meso
Foi você quem não avisou nada
Não é não
Pra mim

9 x 9
Banco ligeiro
Rabos assados
Peido

Negli
Ência
Osco
Ol
Ato
Ias
Rreio
Eijo
Uza

Saco Plástico

Gozo

18.6.06

A todos os jovens

Essas gatinhas manhosas
Pêlo fresco
Sorrisos de sol

Calibradas de juventude
Sentinelas da precisão
Eva de Mário

Os olhos de tão menos anunciam

E nesse dia de virada
Meu desejo
A todos os jovens: um eterno feliz aniversário!

2.6.06

Bocado eterno

Pedra marcada
Doces e precoces cineastas

Então, descobri que o rastro do seio sorria um punhado de algo
Veja bem o vão!

E entrei
E lá, por um tempo fiquei

Tinha luz escura, textura de menos
Tinha gosto de dentro e fios de cabelos

Agora de fora um pouco restou
Sobejo safado, veja bem você!

E se é de findar
Agora eu vou contar

É que eu nada vi
Apenas menti!

27.5.06

Dúvida

Merda!
Quanto é o espaço do amor?

8.5.06

Priscila

Senti o gosto amargo dela sentinela na praia da África do Sul em montes finos de areia sob o raio de sol tedioso que cortava a pele macia de todos dentro d´agua doce de um lago fustigado pelo mar tão próximo. Assim, esclarecer o sentido da janela do olho do homem em difíceis convergências de pensamento não é reacionário. É livre. As vezes triste, mofino, insignificante e sensual. Palavras são medidas de um jogo aéreo, ligeiro tudo no vapor em gole de vaidade amendrotada pelo o olho do dedo que aponta a idéia. Não há de existir encomenda de tecido textual, único. Mas se pedem, o que fazer? Fica tão difícil agradar como fosse uma ordem insalubre e desmedida. Mas, se Priscila lhe pedisse um simples desejo de mulher, o faria sem cessar um castelo de idéias claras como nunca antes o fizesse. Não é um bilhete de amor, não é um flerte casual. É o passo final de um amigo que gosta e quer o abraço sincero da amizade sem dizer demais, sem extrapolar demais: simples, um simples amigo para sempre.


Beijos Pri.